Cirurgia Plástica: Perigo nas Redes Sociais

A cirurgia plástica é muito ampla. Além do que é compreendido como estética, estão as grandes cirurgias plásticas reparadoras, como tratamento de um grande queimado ou um braço amputado, um traumatismo crânio facial, etc. Um dos maiores reconhecimentos está em recolocar no mercado de trabalho um cidadão que se encontra nesse estado. A cirurgia plástica é vista como uma especialidade muito séria graças a esses dois aspectos: reparador e estético.

Os cirurgiões plásticos brasileiros são reconhecidos pelos métodos efetivos. Dr. Pitanguy, por exemplo, foi o responsável pela internacionalização da cirurgia plástica brasileira. Criou técnicas que são copiadas no mundo todo. Nosso talento estético é muito grande e o Brasil é um País que bate recordes na especialidade.

Como cirurgiões plásticos, temos sempre resultados apreciados. Pacientes, inclusive de outros países, divulgam a satisfação obtida. Além disso, a imprensa repercute as novidades como feitos de abrangência internacional. Infelizmente, muitas vezes de maneira equivocada. Existem diversos programas que abordam esse tema, nas televisões abertas, bem como os reality shows dos canais pagos e na mídia como um todo.

As mídias sociais especialmente, e sem nenhum controle, podem criar não raro os “falsos especialistas” ou fake dos implantes, levando os procedimentos estéticos importantes a uma banalização, tratados sem critérios por profissionais sem preparo, sem treinamento.

Em um capítulo de sua importante publicação centenária “Teses de Cirurgia Estética”, Dr. Rebello reportava o perigo de se fazer infiltrações na pele de implantes injetáveis com fins estéticos, especialmente pela ocorrência de complicações severas, tais como infecção e necroses, quando o produto injetado era silicone líquido e outros similares.

Nos dias de hoje, após 100 anos de cirurgia estética no Brasil (1915-2018), a situação com os implantes injetáveis ficou pior. E muito além, os pacientes não sabem o que foi injetado, podendo ser silicone industrial ou mesmo óleo de soja, silicone líquido e o polimetilmetacrilato (PMMA), ainda mais temíveis em grandes quantidades.

Esses implantes injetáveis foram, inicialmente, desenvolvidos por Dr. Robert Ersek (USA), nos anos 90. Tratava-se de um polímero bio compatível, de nome bioplastique.

No Brasil, em 1991, o médico gaúcho Dr. Nácul popularizou o uso do PMMA com o nome de Bioplastia. Hoje, praticamente banido da cirurgia plástica brasileira. Os implantes autorizados pelo CFM e SBCP (Conselho Federal de Medicina e Sociedade de Cirurgia Plástica), são os implantes de ácido hialurônico, mesmo assim, por médicos treinados e habilitados para tal.

Voltando à internet, os procedimentos estéticos, em particular os implantes injetáveis, voltaram de maneira exponencial, a serem aplicados de maneira equivocada. E mais, esses implantes são manipulados por uma gama de profissionais, desde personal trainer, cabeleireiro, além de outros da área de saúde, como esteticistas, dentistas, enfermeiros, fisioterapeutas e, pasmem, médicos “especialistas” em implantes injetáveis de “bumbum”

Quiçá, todos amparados por uma lei aprovada pelo Congresso, Lei do Ato Médico, desfigurada em 2014 passando a ser uma lei “Frankenstein”, quando foram cortados 10 artigos, com finalidade específica, os fins eleitoreiros, ao diminuir a profissão de médico no Brasil para propiciar a prática da medicina por todos não médicos, acima descritos.

Outro viés envolve a lipoaspiração e lipoenxertia, ambas chamadas pela mídia de lipoescultura. Mesmo com boa eficácia e eficiência em mãos competentes, pode ser uma tragédia quando são realizadas sem critério nenhum em clínicas de estética, também por não especialistas.

Essas cirurgias, segundo determinação do CFM, só devem ser feitas em ambientes hospitalares e sempre por um cirurgião plástico, na presença de um anestesista. Temos o dever de aceitar a cirurgia estética como especialidade honesta, lícita, mas temos a obrigação de combatendo o charlatanismo, proteger os interesses respeitáveis do paciente. O charlatão “diplomado”, mancha negra da medicina, poderá aproveitar se de uma especialidade tão nobre para a execução dos seus pequenos e baixos objetivos.

Assim, ainda citando o mestre Rebello, que em outro trabalho publicado em 1933, sem o advento das redes sociais “Da Cirurgia Estética face à responsabilidade legal”, afirma: “Antes de conduzir a cirurgia estética aos artigos da lei em vigor no Brasil à questão da responsabilidade, é necessário procurar defini-la e delimitar o seu espectro.  A estética ou cosmética e a outra que trata de recompor a função, Cirurgia Reparadora”, na sequência comenta algumas leis do código penal da época. É quase impossível separar uma da outra. Ambas fazem parte da cirurgia plástica.

Alguns afirmam que a cirurgia estética abre portas para o charlatanismo. Não concordamos com a premissa. As almas danosas permeiam quase todas as atividades laborativas.  Sendo charlatães, a eles devem ser aplicados com o máximo rigor os princípios da responsabilidade, tanto legal como moral, face ao desamparo de um público à mercê. 

O Centro Regional de estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação – Cetic.Br/ UNESCO – afirma haver, em 2018, perto de 45,3 milhões de brasileiros que costumam buscar informações relacionadas à saúde na internet e redes sociais.  O problema é que em vez de prestação de serviços e informações confiáveis, as pessoas muitas vezes se deparam com notícias falsas e propagandas enganosas ou, no mínimo, comunicações que ferem as regras de publicidade para o segmento.

Pelo poder da Internet e redes sociais, recentemente um médico não especialista, portanto, não cirurgião plástico, foi desmascarado por prática de charlatanismo, indiciado pela polícia pela morte da uma bancária, que após se submeter a um procedimento estético na residência dele, no Rio de Janeiro.  Autodenominado “Doutor Bumbum”, ele utilizou a força das mídias sociais, onde tem quase um milhão de seguidores somando todas as plataformas, para ampliar o seu alcance e promover seus produtos e serviços por meio de vídeos, textos e fotos de seus pacientes e procedimentos.

Estamos no terceiro milênio, era da informação e nossas recomendações para aqueles que almejam uma solução para o seu desconforto psíquico- físico- social, devem seguir três etapas antes de realizar um procedimento estético.